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27/05/2016 - Categoria: Textão - Autor(a): Mariana Fernandes

lembrança

Olá, aqui fala uma garota de 2 anos que fugia do vizinho um pouco mais velho que insistia em me beijar. Em toda brincadeira que eu queria fazer, ele só deixava se eu desse um beijo. Daí tudo bem, duas crianças de idade parecida, qual uma delas tinha muita curiosidade!

Certa vez, no aniversário de uma coleguinha, esse meu vizinho me proibiu de passar no corredor se eu não o beijasse. O que eu fiz? Pela primeira vez gritei pela minha mãe que logo me tirou dali. O que o meu vizinho fez? Também contou para a mãe dele, que veio furiosa gritar para mim, uma garotinha de 2 anos que eu era lésbica, mal amada e que eu nunca conseguiria um homem como o filho dela. Eu, uma garota de 2 anos! Com essa idade eu não deveria me lembrar de muita coisa, realmente não lembro, mas disso eu nunca consegui me esquecer.

Agora eu cresci um pouquinho, devo estar com uns 5 anos, e me apareceram mais pretendentes involuntários. Um namoradinho que eu não queria, mas os pais dele gostavam de mim e queriam, então começaram a falar que eu era a namorada do filho deles. Isso me incomodava? Sim. Eu podia fazer alguma coisa? Não.

Entrei na pré-adolescência, e chegou a fase de dar o meu primeiro beijo! Nessa época eu lembro de um amigo de infância que se “apaixonou” por mim. Óbvio que eu deveria corresponder, não é mesmo?! Um menino tão bom, tão legal, deixou que eu tivesse a honra de ter o primeiro beijo com ele. Só que eu aos 12 anos não havia amadurecido o suficiente para gostar de alguém, então não aceitei. Os “amigos” do meu grupo ficaram insistindo até que eu parasse de querer sair para encontrá-los. Dessa vez foi minha mãe que desconfiou e deu aquele básico carão de mãe nos meus colegas. O resultado é que deixaram de falar comigo por algum tempo e um dos meninos se viu no direito de me chamar de “vadia, sem sal”. Aos 12 anos eu me tornei uma “vadia, sem sal”.

Um ano depois eu finalmente tive o meu primeiro beijo, com um garoto que eu realmente gostava, e logo virou o meu primeiro namoradinho de pegar na mão. Pena que eu tive que viajar, pois o meu primeiro namoradinho decidiu me substituir enquanto eu estava de férias. Afinal, todo homem tem necessidades, não é mesmo?!

Felizmente aos 15 anos encontrei a pessoa certa! Pelo menos nesses quase 10 anos que estamos juntos. Mas infelizmente não acabou por aí.

Aos 18, o professor qual eu tive uma paixonite platônica, por volta dos 13 anos, entendeu que como eu tinha atingido a “maior idade”, nós poderíamos ficar juntos. Eu que tinha namorado e ele que já era casado. Bem, eu rejeitei e ofereci continuarmos a amizade que tínhamos. Ele sumiu.

Aos 21, fui chamada de feminazi (xingamento para quem é feminista). Por que? Porque disse ao meu colega da trabalho que traiu várias vezes sua mulher grávida, que não aceitaria uma prancha de cabelo como desculpas se eu fosse ela, quando o próprio me pediu opinião. E sim, sou feminista com muito orgulho!

Nesse 24 anos que carrego, eu já fui tudo. Vadia, lésbica (como se isso fosse um xingamento), sem sal, travesti, feminazi, machuda (por não usar salto) e uma possível boa amante. Além de ser ruiva, ou seja, estou na lista da maioria dos caras ignorantes que antes me queimariam por achar que sou bruxa e hoje acham que sou boa de cama.

Mas me diz uma coisa?! Isso aconteceu quando você estava em um bar, um baile funk, tarde noite quando você estava no meio da rua? Já sei, você estava de roupa curta?

Não! Isso são apenas algumas histórias leves que aconteceram comigo, na escola, no condomínio, na faculdade e no trabalho. Umas daquelas que eu não esqueci, umas daquelas que eu decidi compartilhar. Mas se eu que tenho histórias leves, nunca consegui esquecer, imagina as milhares de mulheres que sofrem algum tipo de agressão, seja mental, física, verbal ou sexual.

Tudo que eu desejo é força, a cada mulher de coragem que saem todos os dias de suas casa para enfrentar essa selva onde atitudes brutais são tratadas como nada e as mulheres que reclamam, são as malucas, histéricas da história.